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As Olimpíadas acontecerão em Beijin = Pequim, na China, uma país tido como corrupto, preconceituoso, homofóbico ao extremo e que está descobrindo as maravilhas da vida capitalista, que aliena tanto quanto o seu tipo de política interna.

Por incrível que pareça, dizem que as olimpíadas nada tem a ver com aquele país, no que eu discordo pois, os esportes são atividades humanas onde mais homofobias, bullying, assédio moral e sexual existem.

Até aí China e Olimpiadas se merecem.

No que elas destoam é apenas no caráter democrático para Inglês ver. Pelo menos nos esportes podemos recorrer a Justiça e reclamar nossos direitos.

Publicado: 18 novembro, 2006 em educação sexual, ensino, Escolas Bullying, gênero, sexualidade

Não pergunte ao professor
17/11/2006

Faltam às instituições de ensino programas pedagógicos para lidar com a diversidade sexual

Este ano, o Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS) publicou um levantamento que mostra que 92% da população brasileira defende o respeito ao direito de ser homossexual. Destes, 54% acreditam que a discriminação ao segmento GLBT deve ser criminalizada e 82% declaram que conviver com gays na escola não traz problemas de relacionamento.Porém, para a maioria das pessoas, falar sobre homossexualidade continua a ser um tabu.

A constituição social, religiosa e conservadora faz com que as conversas informais acerca de sexo não transgridam o preconceituoso senso comum. Isso aumenta a responsabilidade que os colégios já têm, que é trazer os debates à luz da ciência. Hoje em dia, ainda que timidamente, alguns trabalham com temas ligados à sexualidade; mesmo estes, no entanto, evitam discutir a homossexualidade.

Os professores e funcionários, despreparados, não sabem como agir ante o assunto e o ignoram, o que não é de forma alguma uma boa solução.

“O maior mal que a escola me fez foi a nulidade da abordagem da temática [homossexual]”, relata Tomas Mascarenhas, 20 anos.

“O silêncio de professores e da coordenação, que presenciavam eventualmente cenas de homofobia, sempre foi a resposta”, completa.

Outras vezes é ainda pior: o colégio reproduz o preconceito social, tornando-se um espelho da sociedade e não um espelho para a sociedade.
“Meus professores ridicularizavam a imagem do homossexual através de brincadeiras em sala de aula”, relembra Carlos Muniz, 23 anos.

“Como eu poderia me sentir confortável num lugar que tratava a homossexualidade com algo errado, engraçado?”, conclui.

Os impactos de um ensino omisso ou homofóbico são inúmeros e graves.

“A escola interfere fundamentalmente na formação do sujeito”, afirma a pedagoga Marília Mendes, mestra em Psicodidática pela Universidad Del País Vasco (Espanha), que faz palestras sobre a sexualidade humana.

Segundo ela, várias pesquisas apontam nos gays, como conseqüências de uma má abordagem da homossexualidade, uma baixa auto-estima, conflitos de identidade, isolamento social, agressividade, depressão e dificuldade na aprendizagem.

Bullying

O termo norte-americano é utilizado para definir a segregação a que alguns alunos são submetidos por outros.

“O bullying é caracterizado por um conjunto de ações por parte de um grupo que transforma indivíduos em motivo de chacota, humilhando-os e excluindo-os do meio social”, conceitua Marília.

Os alunos diminuem seus rendimentos no colégio, podem se tornar introspectivos, agressivos e, inclusive, cometer suicídio.

No caso dos gays, frequentemente os colégios fazem vistas grossas ao preconceito, ou são até agentes dele.

“Eu falava muito durante as aulas, e minha professora, pra me coagir, ficava ‘desmunhecando’ quando mandava eu ficar quieto”, conta U. P, 22 anos.

“O colégio me fez ter medo de ser gay. Eu via como os gays eram tratados por lá”, desabafa.

Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), afirma que o aluno que é vítima do bullying muitas vezes perde o interesse pelos estudos, aumentando o índice de evasão escolar.

“Pela violência e intolerância, o jovem não encontra apoio nos professores, na direção nem nos coleguinhas machinhos, e acaba saindo da escola, isso quando não é expulso”, denuncia.

Professores e funcionários homofóbicos podem ser acionados legalmente.

“A situação é de constrangimento, vexame, um crime contra a criança e ao adolescente, porque eles têm direito a um tratamento humanitário em relação a sua sexualidade, que é um direito fundamental”, explica Cerqueira.

“Com esse principio e com o uso do Estatuto da Criança e do Adolescente, cadeia neles [nos homofóbicos]”.

Despreparo

A omissão das instituições de ensino pode se originar da falta de know-how para lidarem com o assunto. As dúvidas sobre homossexualidade sempre surgem entre os alunos e não são esclarecidas corretamente.

“Uma vez uma funcionária do setor psicológico, ao falarmos de homossexualidade, me disse: ‘Mas você é um menino tão bonito, poderia ter tantas namoradas… Pára com isso!’”, relembra Marcelo Rocha, 17 anos.

Apesar de a Orientação Sexual constar nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), pouco se fez até hoje para garantir aos profissionais da Educação a formação necessária.

É difícil para eles trabalharem com desenvoltura um tema para o qual não foram formados ou não se sentem seguros. “É importante que nos cursos de formação de professores estes profissionais tenham acesso a disciplinas que discutam a Sexualidade, para que possam tratar do tema adequadamente com seus alunos”, afirma Marília Mendes.

Rita Moreira, socióloga, especialista em Educação pela Universidade Estadual da Bahia (UNEB) e membro do Grupo de Estudos em Filosofia, Gênero e Educação da Universidade Federal da Bahia (GEFIGE-UFBA) diz que a sexualidade faz parte da condição humana e precisa ser abordada com naturalidade.

Segundo ela, na Bahia existem poucos, mas importantes cursos para os professores interessados. “Temos hoje o Programa de Educação Sexual (PROEDSEX) na UFBA, do Instituto de Biologia”, diz. “Além disso, o Instituto está promovendo curso de extensão sobre o ensino de Ciências e Gênero, com enfoque na sexualidade”. Rita cita ainda o Núcleo de Estudos Interdisciplinares Sobre a Mulher (NEIM) e os debates que o GEFIGE promove sobre Gênero, Sexualidade e Educação, na Faculdade de Educação (FACED).

“Alguns desses são gratuitos e de ampla divulgação na internet e nos Institutos onde acontecem”, diz.Este ano, o Governo Federal lançou o programa “Educando para a diversidade: como discutir homossexualidade na escola”, fruto de uma ação conjunta do projeto “Brasil sem Homofobia”, que visa realizar ações de combate à homofobia em todos os ministérios.

O programa só foi implantado em Curitiba e São Paulo. “As verbas são poucas, mas esse ano nós iremos aplicá-lo aqui”, promete Marcelo Cerqueira. “Mas já temos [no GGB] muita bibliografia e material especial para professores que queiram fazer esse tipo de trabalho na sua escola”, acrescenta.

Normalidade

Segundo Antônio Neto, psicanalista formado pela Escola Brasileira de Psicanálise, a psicanálise explica a diversidade sexual através de uma antiga lenda. A lenda conta que a humanidade era uma esfera colossal, unida e maciça. Até que os deuses, brigando entre si, com suas espadas cortaram a esfera em inúmeros pedaços; cada fragmento originou uma pessoa. “E cada um busca pela parte que perdeu, que o completará; e ela tanto pode ser um homem como uma mulher”, finaliza o psicanalista.

Há algum tempo já é consenso no meio científico que a homossexualidade é algo natural. Em 1973, ela saiu da lista d’O Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais (DSM).

Em 1980, deixou também de ser considerada doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Contudo, muitas coisas complicam a auto-aceitação. “Quando me descobri [gay], não conseguia me entender, meu mundo caiu”, desabafa L. V, 21 anos.

“Entrei em depressão e só consegui sair quando conheci amigos gays que me fizeram perceber o quanto ser gay é ser normal, é ser humano”. Para os gays que se “descobrem” durante o período escolar, o forte preconceito social reproduzido pelos colegas é uma das maiores barreiras. “Sabemos como é difícil ser considerado ‘diferente’ numa sociedade neoliberal, que valoriza padrões e modelos de ‘normalidade’”, pondera Rita Moreira.

Além disso, normalmente o jovem não tem respostas para suas dúvidas. “Não existe em escola alguma um serviço de orientação para jovens homossexuais”, reclama o presidente do GGB. “Não existem referências”.

Antônio Neto considera de enorme importância que se discuta a homossexualidade nos colégios. “É necessário mostrar ao sujeito do novo milênio que tanto faz ser hétero ou homossexual”, afirma. “Ambas as orientações têm o mesmo grau de normalidade”.E a sociedade, a passos lentos, parece estar percebendo isso, como mostram as estatísticas do IBPS. Agora, cabe às instituições de ensino fazerem sua parte, educando as crianças e adolescentes para que o mundo se torne um lugar mais justo.

Que, independente de quaisquer características que nos tornem diferentes, a condição humana seja sempre motivo suficiente para garantir o respeito a todos.*Ronney Argôlo é estudante de jornalismo da Faculdade Social da Bahia (FSBA).

Fonte: Mix Brasil