Pesquisa sobre reação das famílias à homossexualidade – FOLHA de domingoGAYLAWYERS Re: [abragay], Listagls

Publicado: 8 outubro, 2007 em Uncategorized

NOTA: Os primeiros 4 parágrafos da matéria, que contém os dados principais da pesquisa, foram retirados da matéria de capa, “A família arruma a cama”. Logo na sequência vem o texto original da matéria “Mudança de registro”, que comenta estes dados. Eu só juntei tudo pra facilitar e filtrei os assuntos não-GLBTs – Deco

RIO DE JANEIRO – O professor universitário Jean Wyllys, que venceu o Big Brother em 2005

Laura Mattos

Mudança de registro
Maior exposição na mídia, popularização das paradas e uma tendência mundial pelo direito dos homossexuais explicam o aumento da tolerância, dizem estudiosos e militantes

O Sudeste é menos intolerante: 18% não vêem problema ter filho/a namorando alguém do mesmo sexo

A aceitação ao homossexualismo parece estar, como dizem, “bombando”. Leia-se a pergunta. “Se você soubesse que um filho homem está namorando um homem, você consideraria um problema muito grave, mais ou menos grave, pouco grave ou não consideraria um problema?”

Em 1998, 77% dos entrevistados achavam que essa situação seria “muito grave”. O índice caiu 20 pontos percentuais em nove anos: hoje, só 57% teriam essa reação. Se o “problema” ocorresse com uma filha, os níveis de tolerância não se alterariam significativamente: 55% dos entrevistados não achariam “muito grave” se ela namorasse outra garota.

Os dados surpreendem bastante, uma vez que num livro recém-publicado, “A Cabeça do Brasileiro”, de Alberto Carlos de Almeida (editora Record), o homossexualismo é objeto de forte rejeição. A pesquisa foi feita em 2002 e mostra que 89% da população afirma ser “totalmente contra” ou “um pouco contra” o sexo entre dois homens.

Cinco anos de intervalo entre uma pesquisa e outra não explicam tudo, e sem dúvida entramos aqui no labirinto das sutilezas metodológicas. É que a pergunta feita na pesquisa de Alberto Almeida é um bocado diferente. Em vez de imaginar a situação de um filho namorando outro homem, o questionário indaga diretamente se o entrevistado aprova ou rejeita “o homossexualismo masculino” em geral. Pode-se imaginar que ele condene a prática, pensando nas suas próprias preferências ou nas “leis da natureza”, sem entretanto arrancar os cabelos se um filho a experimentasse.
O que aconteceu nos últimos nove anos no Brasil para que um quinto dos pais deixassem de considerar “muito grave” que um filho ou filha namore alguém do mesmo sexo? Mais: por que aumentou o número daqueles que nem acham que isso seria um problema? De 1998 para cá, a militância e as paradas gays se multiplicaram, Jean Wyllys assumiu ao vivo e venceu o “Big Brother”, um acordo judicial deu à companheira de Cássia Eller a guarda de seu filho e quase todas as novelas das oito passaram a ter personagens homossexuais.
“Se o debate não entrou na casa das pessoas pelos jornais, chegou via novelas, que estão discutindo se gays podem ou não adotar uma criança, beijar-se etc. De modo geral, a abordagem, ainda que não seja ideal, tem sido positiva e menos caricata. Mesmo quem é menos informado passou a ter contato com a questão”, diz a antropóloga Regina Facchini, vice-presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de SP.

Facchini e outros estudiosos da homossexualidade receberam com otimismo a queda de preconceito registrada pelo Datafolha. “É uma mudança grande, não só pelo número dos que deixaram de considerar ‘muito grave’ que o filho ou filha tenha uma relação homossexual, mas principalmente porque houve uma subida notável entre os que não consideram isso um problema”, avalia.

Para a antropóloga, o resultado está relacionado à maior visibilidade do movimento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e trangêneros). “A militância levou à apresentação de projetos de lei, como o da parceria civil entre homossexuais e o da criminalização da homofobia. Ainda que até agora não tenham sido aprovadas, essas propostas acabaram por ampliar o debate na sociedade. Paralelamente, tivemos o crescimento das paradas. A de São Paulo começou em 1997 com 2.000 pessoas. Neste ano, foram 3,5 milhões. Há dez anos, tínhamos, além da paulistana, apenas a do Rio. Hoje são mais de cem espalhadas pelo país.”

Facchini aponta que, nos últimos anos, a discussão sobre homossexualidade não só é mais ampla como teve um salto qualitativo. “Nos anos 1980, pouco se falava sobre o assunto e, quando passou a ser abordado, estava ligado à Aids. Com o tempo, a mídia deixou de fazer reportagens apenas sobre números da Aids ou de assassinatos de gays. A pauta não é só de desgraças.”

Antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott também menciona a maior visibilidade do movimento e a “heterossexualização da Aids”, mas acrescenta outros dois fatores: uma tendência mundial de divulgação de estudos científicos que apontam a normalidade da homossexualidade e políticas governamentais, como o programa Brasil sem Homofobia, do Mi-nistério da Saúde, que exibiu anúncios positivos na televisão.

O mesmo programa é citado por James N. Green, historiador, brasilianista e ativista do movimento gay norte-americano. Autor de três li-vros sobre a homossexualidade no Brasil, ele afirma que as campanhas governamentais brasileiras estão alinhadas ao movimento internacional pelos direitos dos homossexuais e complementa: “Antes, só homens mais efeminados e mulheres mais masculinizadas eram visíveis.

A tolerância aumentou conforme mais pessoas se assumiram”, acha. Para o historiador, o fato de a ju-ventude atual também discriminar menos acaba afetando positivamente familiares mais velhos. Segundo o Datafolha, as taxas mais baixas de rejeição aparecem na faixa etária dos 16 aos 25 anos. Mas Green acha ainda que a ficção está ajudando a mudar a realidade. “Apesar de al-guns retratos que mantêm o preconceito, as novelas brasileiras foram fundamentais para a queda da intolerância”, diz. Mott concorda que os folhetins ajudaram, mas é mais contundente na crítica a eles.

“Falta ousadia, como esse casal assexuado de ‘Paraíso Tropical’. A telenovela já criou muitos personagens caricatos, como o Uálber [guru interpretado por Diogo Vilela em ‘Suave Veneno’, 1999]. Até agora, o casal mais positivo foi Sandrinho [André Gonçalves] e Jefferson [Lui Mendes], de ‘A Próxima Vítima’ [1995]”, opina. Convicto do papel das novelas na redução do preconceito contra gays, Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia da USP, acha o casal de “Paraíso Tropical” positivo. “Eles vi-sivelmente se amam, não é uma relação de sacanagem. Isso é interessante porque, para muita gente, a homossexualidade não está tão ligada ao amor, mas a uma sexualização mais forte. É como se fosse mais es-candalosa, sacana, e a heterossexualidade, mais discreta.”

Na opinião de Mott, contudo, mais do que as novelas, dois episódios midiáticos dos últimos anos foram essenciais. “Houve uma comoção nacional favorável ao movimento homossexual em dois momentos: quando Jean Wyllys se assumiu gay e ganhou o ‘Big Brother’ e quando a namorada de Cássia Eller obteve a guarda de seu filho”.

A companheira de Cássia por 14 anos, Maria Eugênia Martins e o pai da cantora, Altair Eller, disputaram na Justiça a guarda de Chicão, filho de Cássia, que contava oito anos quando ela morreu, em 2001. Após acordo, o menino ficou com Eugênia. “Na época houve mesmo uma comoção do país, da mídia. Fiquei muito admirada e comovida com o apoio que recebi das pessoas”, lembra.

Os novelistas e a pesquisa

Lauro César Muniz – A existência de personagens gays em quase todas as novelas das oito nos últimos tempos é uma banalização, sim –mas uma banalização positiva, porque faz adquirir um status de normalidade, acredita. Não tem dúvidas sobre o papel desempenhado pelas novelas no aumento da tolerância e defende que os folhetins avancem, assumindo “verdadeira militância” para estender aos gays os mesmos direitos dos héteros. “As novelas têm de passar a reivindicar o pleno direito às relações gays, direito de herança, adoção de crianças, legislação equiparada à dos héteros. Fiz campanha pelo divórcio em ‘Escalada’ [1975], e a lei foi aprovada.” Ele adianta que pretende fazer “merchandising social” pró-gays em sua próxima obra, prevista para maio. “Tomara que me deixem colocar no ar o primeiro beijo gay.”

Silvio de Abreu – O criador do jovem casal Sandrinho e Jefferson, na novela “A Próxima Vítima” (1995), considerado um marco pelo movimento GLBT, foi outro que comemorou o resultado da pesquisa. Abreu conta que, em 1995, recorreu a um “truque” : “Resolvi não fazer nada estereotipado nem revelar que eles eram gays até que já fosse queridos pelo público. A revelação se deu em uma conversa entre Sandrinho e a mãe dele. Ele dizia: ‘Eu não sou assim porque quero, sou porque nasci assim’. Não estou dizendo que isso mudou o mundo, mas colocou-se uma idéia, começou uma nova maneira de ver a questão”.

Manoel Carlos – Criador de gays em “Por Amor” (1997), “Mulheres Apaixonadas” (2003) e “Páginas da Vida” (2006), tem receita parecida. “Eles precisam ser pertinentes, sem forçar a barra nem escandalizar ninguém.”

Gilberto Braga – Criticado pela falta de intimidade do casal Rodrigo e Tiago, de “Paraíso Tropical”, resume a dificuldade dos autores, prensados entre a moral do público e as reivindicações do movimento gay. “Precisamos que eles sejam bem aceitos pelo público”. O autor, aliás, viveu recentemente uma situação que poderia migrar para suas tramas. Em uma entrevista, declarou que seu companheiro, com quem vive há mais de 30 anos, não podia ser seu dependente no plano de saúde. Depois disso, o caso foi solucionado pela Globo. (LM)

Depoimento
Como contar para a mãe – Contar aos amigos que você é gay é relativamente fácil, já existe uma tolerância generalizada que facilita tudo, pelo menos em algumas camadas sociais. Além disso, quem é realmente amigo percebe que o sujeito é gay sem ele nem precisar dizer nada. Agora, falar para a mãe ou o pai já fica bem mais difícil. Dizem que as mães sempre sabem, mas fazem tudo para convencer o filho de que isso não é bom. Falam de netos, de solidão na velhice, de amor, de respeito da sociedade e de qualquer coisa que venha à cabeça delas para desestimular a viadagem. Mas o que tem que ser vai ser. Com ou sem a aprovação dos pais. Alguns gays até chegam a casar para satisfazer a família, mas depois de um tempo deixam suas mulheres para tentar a sorte com um garotão. As mães fingem que não vêem, e os filhos fingem que nada mudou, foi “só” o casamento que não deu certo. E aqueles garotos mais jovens, com os quais ele passou a andar, são só amigos da academia ou das baladas de solteiro. E os que não querem nem saber de mulher? Os que nunca tiveram uma namorada nem querem ter? Esses são os que poderiam assumir já aos 12 ou 13 anos, mas não! Ficam escondendo até muito mais tarde. Levar o namorado para casa só se for disfarçado de amigo. Contar como? Chegar para a mãe e dizer: “Mamãe, sou gay!”? Na lata? Sem rodeios? Se ter que contar que tirou nota baixa na escola já é difícil, imagine isso. Alguns pais chegam a brigar pela “honra” dos filhos, defendendo o herdeiro de todas as acusações. Isso faz tudo ficar ainda mais difícil. Como contar que você é realmente gay depois que eles brigaram com sua tia, para sempre, por causa desse assunto? Uma vez um amigo me pediu para mandar uma carta anônima à mãe dele; eu recusei, e ele mesmo acabou enviando. E, qual não foi a surpresa?, a mãe fingiu que não tinha recebido a carta. Depois de alguns anos, ele contou não só que era gay, como também que tinha sido ele quem tinha enviado a carta. A mãe disse que sempre soube, mas que não conseguia admitir. Chorou como uma louca, depois foi aceitando aos poucos, mas ele ainda não teve coragem de apresentar nenhum namorado a ela. Não adianta fazer rodeios; mãe só acredita que o filho é gay no dia em que escuta da própria boca dele, e mesmo assim ainda fica tentando fingir que é só uma fase.

Duilio Ferronato, 44, colunista da Folha e designer, mora com o namorado há dois anos.

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