As Mulheres

Publicado: 6 agosto, 2007 em Uncategorized

Hoje refletia sobre as relações entre mulheres, quando um amigo recente me surpreendeu com uma colocação não só desconcertante, quanto reveladora. Disse ele, entre um gole de café e outro: ‘‘as mulheres têm experiências homossexuais, desde sempre’’. Como assim? Eu não me lembro de ter vivido uma experiência homossexual.

Não me furtei a refletir sobre o tema, demoradamente analisei a colocação. Afinal, o que é uma experiência homossexual? Foi aí que sorrateiramente se foi abrindo uma nova percepção sobre o tema.

Mulheres se arrumam com o intuito de agradar suas iguais, demoradamente se enfeitam para receber o olhar de silenciosa aprovação umas das outras. É no espaço público, arena predileta para desfilar novas sandálias, novos adornos e vestidos, que a troca de olhares de admiração – ou nem tanto – se dá. Nas praças, nos bares, nas ruas e nos shoppings exibem a elegância discreta, a estética dos diversos estilos, a tentativa – por vezes frustrada – de serem únicas e admiravelmente mais atraentes que as outras.

Mulheres femininas – lésbicas ou não – têm o fetiche de ser objeto de atenção de seus pares. Atenção, falo não de parceiros, mas de iguais. Nada mais excitante que se perceber notada, única, admirada e, sobretudo, invejada, em seu simples caminhar sobre um “chanelzinho” clássico ou numa sandália de designe escandalosamente exclusivo.

Mas não aí é o começo dessa eterna homo-relação que se estabelece. Aliás, começa mesmo na escola primária, com a melhor amiga. Andamos de mãos dadas no pátio da escola, repartimos segredos. São as primeiras confidências trocadas, os primeiros sentimentos compartilhados – ainda que versem sobre o garoto mais bonito da classe – os momentos de intimidade que marcam o início da relação entre nós.

Depois vem a insegurança com o corpo, os seios que despontam, o primeiro sutiã, as sensações novas e desconcertantes que os olhares mais ousados nos provocam. Quem nunca conversou sobre ‘como beijar na boca’ com as amigas? Qual de nós nunca trocou informações – no mínimo – sobre como treinar beijo de língua.

Nós nos tocamos, ainda que fazendo ressalvas ‘respeitosas’ acerca de nossa orientação sexual, os seios das amigas na conversa do banheiro feminino. Sim, tocamos e comentamos se estão firmes – ou não – a cirurgia para turbinar, o tamanho e a forma. Nos olhamos e dividimos as angústias provocadas pela ditadura do corpo malhado, nos analisamos em frente ao espelho e diante das amigas no vestiário da academia de ginástica. Trocamos ‘receitinhas’ de dieta. Amigas, nós nos arrumamos para as festas juntas, partilhamos a mesma cama sem pudores.

Percebemos imediatamente o novo corte de cabelo, a sandália, o vestido, a entrada daquele corpo bem torneado em qualquer espaço. Observamos o sentar, o comer, o andar. Nos admiramos.

Lésbicas ou não, nós trocamos experiências sensoriais e afetivas por toda a vida, em bons e maus momentos. Somos ao mesmo tempo parceiras e competidoras. Somos mulheres em nossa complexidade de sentimentos e sensações.

por Claudia Canto Cabral
Advogada, Escritora
claudia.canto@hotmail.com

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